

Descubra como são preparados os cães-guia que auxiliam os deficientes visuais
A história moderna do cão-guia data da época da Primeira Guerra Mundial. Inicialmente os cães eram treinados para auxiliar os soldados que voltavam cegos da guerra, e só posteriormente passaram a atender também os civis.
“A bengala carrega um estigma, a sociedade olha o deficiente visual de forma piedosa. Com o cão a leitura é diferente, as pessoas se interessam mais, se aproximam”, afirma Alexandra Fiúza – assessora técnica do Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social (IRIS), que trabalha com a preparação de cães-guia em São Paulo. “A bengala provoca uma segregação, já o animal permite uma inserção social, pois todo mundo pode ter um”. E as vantagens não param por aí: o animal detecta obstáculos aéreos, como orelhões e galhos de árvore, e a velocidade na caminhada é maior, à medida que o usuário adquire maior confiança.
O treinamento para tornar um animal apto a orientar um deficiente visual requer muita disciplina e qualificação adequada do profissional que irá treiná-lo; o processo completo pode chegar a dois anos. As raças mais indicadas são Labrador e Golden Retrivier, por conta de sua inteligência, grande docilidade e porte adequado.
Após a escolha do filhote, feita por seleção genética e comportamental, tem início a primeira fase, chamada de socialização. Por volta dos três meses o cãozinho fica sob a guarda de um instrutor ou de uma família voluntária, para aprender os comandos básicos e se acostumar ao convívio com os seres humanos. Por isso um cão adulto não pode ser treinado para se tornar um cão-guia.
Após um ano tem início o treinamento específico, quando o cão aprende sob orientação de um instrutor especializado como se comportar diante de situações que encontrará no futuro. “Desviar de obstáculos, identificar objetos, perceber o movimento do trânsito, encontrar a entrada e saída de diferentes lugares são algumas das atividades que fazem parte dessa fase, que dura cerca de sete meses”, explica George Thomaz Harrison, Psicólogo e Instrutor de Cães-Guia no Rio de Janeiro.
No último mês o animal é finalmente apresentado ao futuro usuário, que aprenderá a interagir e cuidar do animal. Essa fase é tão importante quanto às anteriores, pois a sinergia da dupla é que vai determinar o sucesso da futura parceria.
Assim como os futuros cães-guia, os usuários também passam por um processo de seleção antes do treinamento para receber o animal, que envolve avaliação psicológica, avaliação de orientação e mobilidade, e entrevista com o instrutor. No Instituto de Integração Social e Promoção da Cidadania (INTEGRA), que prepara cães-guia em Brasília, a prioridade é dada a pessoas maiores de idade, não-fumantes e que, acima de tudo, gostem de cachorros. O instituto se responsabiliza por todo treinamento do animal, e não cobra para entregá-lo ao deficiente.
Segundo Michele Pöttker, coordenadora administrativa do INTEGRA, a questão financeira é uma das principais dificuldades, pois nessas instituições o processo é financiado basicamente pela iniciativa privada, e os cães são doados sem custo algum para os deficientes. Mas o obstáculo cultural também é um entrave a ser vencido, pois no Brasil ainda há preconceito com cães-guia em lugares públicos, talvez por conta do pouco conhecimento sobre essa atividade.
Em 2005 foi regulamentada a Lei do Cão-Guia, que assegurou aos portadores de deficiência visual o direito de freqüentar locais públicos, usar transportes coletivos e permanecer em ambientes de uso coletivo acompanhados de seus cães-guia, e inclusive impõe sanções aos estabelecimentos que descumprirem a lei. Também foi definida a certificação dos centros de treinamento e dos instrutores autônomos de cães. “É uma boa lei, porém, é necessário que se coloque em prática a fiscalização dos Centros de Treinamento e instrutores autônomos, pois um treinamento indiscriminado pode trazer sérias conseqüências, como colocar em risco a segurança do deficiente visual”, avalia Michele Pöttker.
Mas o que diferencia um cão-guia de um cão adestrado? Quem explica é George Harrison: “O cão-guia tem poder de decisão, pode desobedecer um comando para proteger seu dono, e trabalha em total sinergia com seu parceiro humano”. Durante o treinamento, por exemplo, é evitado o uso de petisco para que o cão não acostume a ficar procurando comida na mão das pessoas. Do contrário, não poderiam acompanhar os usuários nos restaurantes! Guia, Colar, Plaqueta de identificação, e um peitoral especial para guiar as pessoas com deficiência visual são os equipamentos necessários para que o animal desempenhe sua função.
Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2000, revelou que mais de 16 milhões de brasileiros são deficientes visuais, e estima-se que no país não tenha mais do que 100 cães-guia. No Instituto IRIS a fila de espera já chega a 2000 pessoas de todo o Brasil.
Apesar de irresistível, não afague o cão-guia quando se deparar com um. Ele não deve ser distraído de sua tarefa de orientar aquele que não pode ver, pois sua segurança depende da atenção do animal. E ao contrário do que se imagina, o cão-guia não precisa de cuidados excepcionais. A vida inteira o cão deve receber alimentação de alta qualidade, passar por avaliações periódicas com seu veterinário, fazer utilização de medicamentos profiláticos, como carrapaticida e vermífugo, além dos cuidados com sua higiene. E claro, lazer e brincadeiras nas horas vagas, porque ninguém é de ferro!
Serviço:
Alexandra Fiúza – assessora técnica do Instituto de Responsabilidade e Inclusão Social (IRIS)
www.iris.org.br
George Thomaz Harrison, psicólogo e instrutor de Cães-Guia
www.caoguiabrasil.com.br
Michele Pöttker, coordenadora administrativa do Instituto de Integração Social e Promoção da Cidadania (INTEGRA)
Tel: (61) 3442-7906
integra@integradf.org.br
Fonte: Revista Papo de Pet -ed06
